Como Cortar Gastos Primeiro (e o que Não Cortar)?

Como Cortar Gastos Primeiro

A maioria das pessoas que decide cortar gastos começa pelo lugar errado. Corta o academia, cancela o streaming ou para de sair aos finais de semana.

No terceiro mês, a vida ficou tão sem graça que a vontade de voltar a gastar é maior do que antes e o ciclo recomeça.

Esse padrão acontece porque ninguém ensina a ordem correta de cortar gastos. Existe uma hierarquia nos gastos que, quando respeitada, faz a economia acontecer sem que a qualidade de vida desapareça. Quando ignorada, o esforço vira sacrifício, e sacrifício sustentado raramente dura.

Já passei por isso… cortei coisas que me faziam bem antes de cortar coisas que eu nem usava. O resultado foi um orçamento mais enxuto, mas uma rotina que eu não aguentei manter por mais de dois meses.

Aprendi que Dinheiro é servo, não Senhor e por isso dominá-lo começa por saber onde ele está sendo desperdiçado de verdade.

Por que cortar gastos tudo de uma vez não funciona

Segundo pesquisa da Ipsos publicada pelo portal Alto Astral, apenas 34% dos brasileiros conseguem formar alguma reserva de dinheiro. O número baixo não é por falta de intenção, mas de método.

Quando tentamos cortar tudo ao mesmo tempo, o orçamento melhora, mas a qualidade de vida piora. E como somos seres de hábito, voltamos ao ponto anterior assim que a pressão aumenta.

A abordagem que realmente funciona é diferente:

  • identificar os gastos por tipo;
  • cortar primeiro os que causam menos impacto no bem-estar;
  • otimizar os que causam impacto médio;
  • jamais tocar nos que sustentam qualidade de vida de verdade;

Simples na teoria, transformador na prática!

Os três tipos de gastos e como identificar o seu

Antes de cortar qualquer coisa, é preciso classificar cada gasto em uma de três categorias. Isso muda tudo sobre o que você vai fazer com cada linha do orçamento.

tipos de gastos

Tipo C: gastos que você pode eliminar sem sentir falta

São os gastos que existem por inércia, não por escolha consciente.

Assinatura que você não cancela porque dá trabalho, serviço que você contratou numa promoção mas esqueceu, plano de celular com recursos que você nunca usa, entrega de comida por impulso, etc.

A Pesquisa de Assinaturas 2025, realizada pela Vindi em parceria com o Opinion Box, revelou que 39% dos brasileiros admitem não usar com frequência os serviços que assinam. Quase quatro em cada dez pessoas pagando por algo que raramente utiliza.

Esse é o Tipo C: o gasto que existe no débito automático mas não existe na vida real.

A pergunta para identificar um Tipo C é direta: “Se esse gasto sumisse amanhã, eu sentiria falta na semana que vem?” Se a resposta for não, é Tipo C (corte primeiro).

Tipo B: gastos que você deve otimizar, não eliminar

São os gastos reais que fazem parte da vida, mas que estão acima do necessário para entregar o mesmo resultado.

Delivery de comida que você usa, mas com frequência e valor excessivos. Mercado sem lista onde você coloca itens que não planejou. Plano de internet ou telefonia que tem mais do que você consome. Academia com mensalidade cara quando uma opção mais barata atenderia (as vezes até mais próxima da sua casa).

Esses gastos existem por uma razão válida. O problema não é a categoria, é o tamanho. A estratégia aqui não é cortar, é substituir ou limitar.

Trocar a academia de R$ 200 por uma de R$ 80. Definir dois dias por semana para delivery em vez de cinco. Comprar com lista no mercado e comparar preços antes de entrar na loja.

Dados do estudo Consumer Insights 2025, da Worldpanel, mostram que o preço do almoço fora de casa subiu 22,1% no primeiro trimestre de 2025, com gasto médio por refeição chegando a R$ 35,40, o que levou a uma queda de 2,7% nas ocasiões de consumo fora do lar.

Muita gente está naturalmente ajustando sem perceber. Você pode fazer isso de forma planejada e economizar mais do que faria reagindo ao preço.

Tipo A: gastos que você não deve tocar

São os gastos que sustentam o que você chama de qualidade de vida.

Plano de saúde, alimentação básica de qualidade, transporte para o trabalho, a única atividade de lazer que faz você recarregar de verdade, o curso que está te movendo profissionalmente ou o encontro mensal com amigos que te faz bem.

Muita gente tenta cortar esses gastos primeiro porque são os maiores. Mas são os maiores porque são os mais importantes.

Quando você corta o Tipo A, não está economizando, mas na verdade está se privando. E privação gera compensação futura, geralmente mais cara do que o gasto original.

A ordem correta é sempre: elimine o Tipo C, otimize o Tipo B, preserve o Tipo A.

O que cortar primeiro na prática: o roteiro de quatro semanas

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Em vez de tentar resolver tudo em um fim de semana, esse roteiro distribui os cortes ao longo de um mês para que cada decisão seja tomada com clareza.

Semana 1: mapeie e classifique

Abra o extrato do seu banco dos últimos 60 dias e liste cada gasto recorrente.

Para cada um, pergunte: Tipo A, B ou C? Não faça nenhum corte ainda, apenas classifique. Esse passo parece simples, mas a maioria das pessoas nunca fez isso de forma completa.

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Semana 2: elimine os Tipo C

  • Cancele cada assinatura que você classificou como Tipo C.
  • Ligue para renegociar planos.
  • Remova apps de delivery do celular se o impulso de pedir à noite for constante.

Essa semana pode liberar entre R$ 100 e R$ 400 sem nenhum impacto real na sua rotina.

Semana 3: otimize os Tipo B

Para cada Tipo B, defina um limite mensal específico.

  • Delivery: máximo dois pedidos por semana.
  • Mercado: compra com lista fechada, sem adicionar itens no corredor.
  • Academia: compare alternativas com a mesma distância de casa.

A ideia não é eliminar, é colocar um teto que você mesmo decidiu.

Semana 4: avalie e ajuste

Olhe para o mês que passou e se pergunte:
“O que foi cortado fez falta real?”
“O que foi mantido valeu o preço?”

Esse ciclo de avaliação é o que transforma cortes pontuais em hábito duradouro. Faça isso todo mês nos primeiros dez minutos depois que o salário cair.

A regra da substituição: troque antes de cortar

Antes de eliminar um gasto Tipo B, se pergunte: “Existe uma alternativa que me entrega 80% do resultado por 50% do custo?”

Se sim, substituir é melhor do que cortar. Substituição mantém o hábito positivo e reduz o custo. Corte total elimina o hábito e pode gerar compensação maior depois.

Exemplos práticos que funcionam no Brasil:

  • Streaming de R$ 45 com anúncios em vez de R$ 60 sem anúncios: mesma série, mesma experiência, R$ 15 a menos;
  • Plano de academia coletiva de R$ 60 em vez de academia premium de R$ 200: mesmo exercício, mesmo resultado;
  • Fazer duas refeições em casa durante a semana de trabalho em vez de comer fora todos os dias: a diferença mensal pode passar de R$ 400;
  • Trocar o plano de celular por um com dados suficientes em vez do máximo disponível: quase ninguém usa tudo que paga;

A substituição funciona porque você não está se privando, está fazendo uma escolha consciente entre duas opções, e isso é completamente diferente do ponto de vista psicológico.

O streaming que Natália não sabia que tinha

Natália tem 26 anos, trabalha como designer freelancer em Curitiba e ganhava em torno de R$ 3.400 por mês. Ela achava que não tinha como cortar gastos. “Eu não gasto em besteira”, ela repetia.

Quando ela abriu o extrato e começou a classificar cada gasto na planilha, o quadro mudou.

Sete assinaturas ativas, duas delas que ela tinha esquecido completamente:

  • um app de meditação que usou três vezes (R$ 29,90 por mês) ;
  • um serviço de armazenamento em nuvem de uma conta antiga (R$ 14,90 por mês).
  • Uma conta de streaming que ela pagava há dois anos no plano premium, mas que assistia no celular, onde a diferença de qualidade era imperceptível (R$ 15 a menos no plano padrão).
  • O plano de celular com 30 GB mensais, sendo que ela nunca passava de 12 GB (R$ 40 a menos no plano intermediário).

Total de Tipo C eliminado: R$ 99,80 por mês.

Depois, ela olhou para os Tipo B:
Definia R$ 80 por semana para delivery (respeitava esse limit e passou a fazer lista antes do mercado. Em dois meses, os gastos variáveis caíram R$ 340.

Quase R$ 440 por mês liberados sem cortar nada que ela realmente valorizava. Sem abrir mão do lazer, dos amigos e da academia que ela amava. Apenas organizando o que já existia.

O erro mais comum: cortar gastos do lazer antes das assinaturas esquecidas

Assinaturas

O lazer planejado é Tipo A e ele não deve ser o primeiro a ir.

A maioria das pessoas faz o contrário: para de sair, cancela as férias, deixa de ver os amigos, mas mantém as sete assinaturas no débito automático porque dá trabalho cancelar uma por uma.

A lógica é perversa porque o lazer que você elimina é exatamente o que sustenta sua motivação para trabalhar e economizar. Quando você tira isso, o orçamento melhora por dois meses e depois colapsa porque você está esgotado e sem perspectiva.

Se você ainda está tentando entender para onde vai o seu dinheiro antes de começar os cortes, comece pelo nosso artigo Raio-X de 15 minutos. Sem esse mapeamento, você vai cortar no escuro, e corte no escuro raramente acerta o que precisa ser cortado.

E se a questão não for onde cortar, mas como montar um orçamento que sustente esses cortes no longo prazo, o guia sobre como fazer um orçamento mensal que você consegue seguir é o próximo passo natural.

📚 O livro que muda a forma como você decide onde gastar

Saber o que cortar é uma questão de método. Mas manter os cortes e não compensar depois é uma questão de comportamento. Entender por que gastamos e como gastamos é o que separa quem muda de quem volta ao ponto de partida.

Para quem quer ir mais fundo nesse lado, este é o livro que mais recomendo:

A Arte de Gastar Dinheiro — Morgan Housel
O mesmo autor de A Psicologia Financeira volta com um livro focado especificamente nas decisões de consumo.
Housel explica, com exemplos reais e linguagem acessível, por que gastamos em coisas que não nos fazem felizes e deixamos de gastar em coisas que fariam.
É uma leitura curta e direta que muda o filtro com que você olha para cada compra.

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Conclusão: comece pelos gastos que não estão te servindo

Cortar gastos não significa viver pior. Significa parar de pagar por coisas que não estão fazendo diferença na sua vida.

Quando você elimina o Tipo C, você não perde nada. Quando otimiza o Tipo B, você mantém o que importa por menos. E quando preserva o Tipo A, você garante que o processo seja sustentável.

A ordem importa, o método importa, e o primeiro passo é sempre o mesmo:
abrir o extrato, classificar cada linha e tomar decisões conscientes no lugar de cortes por impulso.

Para entender como esse controle se encaixa dentro de um plano maior de organização financeira, leia nosso guia sobre como organizar a vida financeira do zero e volte aqui quando tiver o diagnóstico completo em mãos.

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Fontes


Perguntas frequentes sobre como cortar gastos

Como saber se um gasto é supérfluo ou essencial?

A pergunta mais direta é: “Se esse gasto sumisse amanhã, eu sentiria falta real na semana que vem?” Se a resposta for não, é supérfluo. Se sim, pergunte: “Existe uma alternativa mais barata que entrega o mesmo resultado?” Esse filtro simples resolve a maioria das dúvidas sem precisar de regras complexas.

Quanto devo tentar economizar por mês cortando gastos?

Não existe um número universal, mas uma meta inicial realista é liberar entre 10% e 15% da renda eliminando Tipo C e otimizando Tipo B. Para a maioria dos brasileiros, esse percentual é alcançável sem comprometer nenhum gasto que realmente importa. A meta de poupança vem depois, não antes.

Devo cortar o lazer para economizar mais rápido?

Não. O lazer planejado sustenta sua motivação para continuar trabalhando e poupando. Cortar o lazer gera privação, e privação gera compensação maior depois. O lazer consciente é Tipo A: preserve, não toque. O que pode ser otimizado é o custo do lazer, não o lazer em si.

Qual é o primeiro gasto a cortar quando o dinheiro aperta muito?

Assinaturas esquecidas ou subutilizadas. É o Tipo C mais comum e o de menor impacto emocional. Faça uma revisão de todos os débitos automáticos do extrato dos últimos 60 dias. Na maioria dos casos, você vai encontrar entre R$ 80 e R$ 200 em serviços que você paga sem usar. Comece por aí antes de qualquer outro corte.

Como manter os cortes sem desistir no segundo mês?

Não corte o que você vai sentir falta. Esse é o principal motivo do abandono. Corte apenas o Tipo C no começo, deixe o Tipo B para o mês seguinte, e nunca mexa no Tipo A. Quando os cortes não tiram nada que você valoriza, a manutenção deixa de ser esforço e vira escolha.

Renan Cunha
Escrito por Renan Cunha
Errei, estudei, acertei e decidi compartilhar o caminho verdadeiro para sair das dívidas, montar reserva de emergência e investir do jeito certo. Meu propósito é que você prospere entendendo que “Dinheiro é servo, não Senhor”. Conheça minha história

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